sábado, 17 de maio de 2025

PAPA LEÃO XIV - PAZ, JUSTIÇA E VERDADE

 DISCURSO DO PAPA LEÃO XIV AOS MEMBROS DO CORPO DIPLOMÁTICO 

ACREDITADO JUNTO À SANTA SÉ

Sexta-feira, 16 de maio de 2025

No nosso diálogo, gostaria que tivéssemos presentes três palavras-chave, que constituem os pilares da ação missionária da Igreja e do trabalho da diplomacia da Santa Sé.
        A primeira palavra é PAZ. Demasiadas vezes pensamos nela como uma palavra “negativa”, ou seja, como uma mera ausência de guerra e de conflito, visto que o confronto faz parte da natureza humana e acompanha-nos sempre, levando-nos demasiadas vezes a viver num “estado de conflito” constante: em casa, no trabalho, na sociedade. A paz parece então uma simples trégua, uma pausa de repouso entre uma disputa e outra, porque, por mais que nos esforcemos, as tensões estão sempre presentes, um pouco como as brasas a arder sob as cinzas, prontas a reacender-se a qualquer momento.
        Na perspectiva cristã – como na de outras experiências religiosas – a paz é, principalmente, um dom: o primeiro dom de Cristo: «Dou-vos a minha paz» (Jo 14, 27). No entanto, essa paz é um dom ativo e envolvente, que diz respeito e compromete a cada um de nós, independentemente da origem cultural e da filiação religiosa, e que exige, sobretudo, um trabalho sobre si mesmo. A paz constrói-se no coração e a partir do coração, erradicando o orgulho e as pretensões, e medindo a linguagem, pois também com as palavras se pode ferir e matar, não só com as armas.
        Nesta ótica, considero fundamental o contributo que as religiões e o diálogo inter-religioso podem dar para promover contextos de paz. Isto exige, evidentemente, o pleno respeito pela liberdade religiosa em todos os países, uma vez que a experiência religiosa é uma dimensão fundamental da pessoa humana, sem a qual é difícil, se não impossível, alcançar a purificação do coração necessária para construir relações de paz.
        A partir deste trabalho, que todos somos chamados a fazer, é possível erradicar as premissas de qualquer conflito ou vontade destrutiva de conquista. Isto exige também uma abertura sincera ao diálogo, animada pelo desejo de encontro e não de confronto. Naturalmente, também é necessária a vontade de deixar de produzir instrumentos de destruição e morte, porque, como recordou o  Papa Francisco na sua última Mensagem Urbi et Orbi: «Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento! A necessidade que cada povo sente de garantir a sua própria defesa não pode transformar-se numa corrida generalizada ao armamento» [1].
        A segunda palavra é JUSTIÇA. A busca da paz exige a prática da justiça. Como já referi, escolhi o meu nome a pensar principalmente em Leão XIII, o Papa da primeira grande encíclica social, a Rerum novarum. Na mudança de época que estamos a viver, a Santa Sé não pode deixar de fazer ouvir a sua voz perante os numerosos desequilíbrios e injustiças que conduzem, entre outras coisas, a condições indignas de trabalho e a sociedades cada vez mais fragmentadas e conflituosas. É necessário também esforçar-se para remediar as desigualdades globais, que veem a opulência e a indigência traçar sulcos profundos entre continentes, países e mesmo no interior de cada sociedade.
        Cabe aos responsáveis governamentais esforçarem-se por construir sociedades civis harmoniosas e pacíficas. Isto pode ser feito, principalmente, investindo na família, fundada na união estável entre o homem e a mulher, uma “sociedade muito pequena certamente, mas real e anterior a toda a sociedade civil” [2]. Além disso, ninguém pode deixar de favorecer contextos em que a dignidade de cada pessoa é protegida, especialmente a das mais frágeis e indefesas, do nascituro ao idoso, do doente ao desempregado, seja ele cidadão ou imigrante.
        A minha própria história é a de um cidadão, descendente de imigrantes, e também emigrado. Cada um de nós, ao longo da vida, pode encontrar-se saudável ou doente, empregado ou desempregado, na sua terra natal ou numa terra estrangeira: a nossa dignidade, no entanto, permanece sempre a mesma, a de uma criatura querida e amada por Deus.
        A terceira palavra é VERDADE. Não é possível construir relações realmente pacíficas, mesmo no seio da comunidade internacional, sem a verdade. Quando as palavras assumem conotações ambíguas e ambivalentes e o mundo virtual, com a sua percepção alterada da realidade, ganha a dianteira sem medida, é difícil construir relações autênticas, uma vez que se perdem as premissas objetivas e reais da comunicação.
        Por seu lado, a Igreja nunca se pode furtar a dizer a verdade sobre o homem e sobre o mundo, mesmo recorrendo, quando necessário, a uma linguagem franca, que pode provocar alguma incompreensão inicial. A verdade, porém, nunca está separada da caridade, que tem sempre na sua raiz a preocupação pela vida e pelo bem de cada homem e mulher. Além disso, na perspectiva cristã, a verdade não é a afirmação de princípios abstratos e desencarnados, mas o encontro com a própria pessoa de Cristo, que vive na comunidade dos crentes. Assim, a verdade não nos aliena, mas permite-nos enfrentar com maior vigor os desafios do nosso tempo, como as migrações, o uso ético da inteligência artificial e a preservação da nossa querida Terra. São desafios que exigem o empenho e a cooperação de todos, pois ninguém pode pensar em enfrentá-los sozinho.
Caros Embaixadores,
O meu ministério começa no coração de um ano jubilar, dedicado de modo especial à esperança. É um tempo de conversão e de renovação e, sobretudo, uma oportunidade para deixar para trás os conflitos e iniciar um novo caminho, animado pela esperança de poder construir, trabalhando juntos, cada um segundo as suas sensibilidades e responsabilidades, um mundo em que todos possam realizar a sua humanidade na verdade, na justiça e na paz. Espero que isto possa acontecer em todos os contextos, a começar pelos mais provados, como a Ucrânia e a Terra Santa.
        Agradeço-vos por todo o trabalho que fazeis para construir pontes entre os vossos países e a Santa Sé e, de todo o coração, vos abençoo com as vossas famílias e os vossos povos. Obrigado!
 

[1] Mensagem Urbi et Orbi, 20 de abril de 2025.

[2] Leão XIII, Carta Encíclica. Rerum novarum, 15 de maio de 1891, 9.

Leia a integra do pronunciamento em:

https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/speeches/2025/may/documents/20250516-corpo-diplomatico.html, acesso em 17 de maio de 2025.

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