domingo, 9 de abril de 2017

CONSAGRAÇÃO DA TERRA

Terra, minha querida, Grande Mãe e casa comum! Finalmente chegou tua hora de unir-te a Fonte de todo ser e de toda a vida.
Vieste nascendo para isso, lentamente a milhões e milhões de anos, grávida de energias criadoras. Teu corpo feito de poeira cósmica era uma semente no ventre das grandes estrelas vermelhas que depois explodiram, te lançando pelo espaço ilimitado. Vieste aninhar-te como embrião no seio de uma estrela ancestral, Tiamat, no interior da Via Láctea, transformada depois em Supernova. Ela também sucumbiu de tanto esplendor. E vieste, então, habitar no seio acolhedor de uma nebulosa onde já menina crescida, perambulava em busca de um lar.
E a Nebulosa se adensou virando um astro de esplêndida luz e calor, chamado Sol. Ele se enamorou de ti, te atraiu e te quis em sua casa, junto com Marte, Mercúrio, Vênus e outros gigantes planetas e celebrou o esponsal contigo.  De teu matrimônio com o sol nasceram filhos e filhas, frutos de tua ilimitada fecundidade, Mãe Gaia, desde os mais pequeninos, bactérias, vírus e fungos até os maiores e mais complexos seres vivos. E, como expressão nobre da história da vida, nos gerastes a nós, homens e mulheres.
Através de nós, tu, Terra querida, sentes, pensas, amas, falas e veneras. E agora,  Terra querida permite que realize o gesto de Jesus na força de seu Espírito. Como ele cheio de unção tomamos-te em nossas mãos impuras para pronunciar sobre ti a palavra sagrada que o Universo escondia  e tua ansiavas por ouvir: "HOC EST ENIM CORPUS MEUM: Isto é o meu corpo";  "HIC EST ENIM CALIX SANGUINIS MEI: Isto é meu sangue". E então sentir que o que era a terra se transformou em Paraíso, o Éden outrora perdido, e o que era vida humana se transfigurou em vida divina. O que era pão se fez corpo de Deus e o que era vinho se fez sangue sagrado.  Finalmente,  Terra, te fizeste Deus por participação. Em  fim na casa de Deus pai e de Deus mãe de infinita bondade e sabedoria.  Tu grávida do Espírito que faz novas todas as coisas rumo a um futuro seguro no qual toda a criação, mostrando sua real beleza, finalmente liberta de toda a corrupção. AMÉM!

Leonardo Boff, em “A força da Ternura”, editora Sextante, Pág. 91

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